Eram mais ou menos 16h40 de segunda-feira, 9 de junho, quando encontrei um jovem nos seus dezesseis anos que me disse: João, mais um, hein? Indaguei dele: Mais um quem? Padre Pedro. Morreu hoje? Acabou de morrer, João, disse-me o jovem, entristecido.
E, então, comecei a ouvir uma revoada de sinos. Revoada é de pássaros? É, eu sei. Mas, aquilo de todos os sinos, de todos os lados, começaram a bimbalhar lembrava bem uma linda revoada em tardes outonais.
pe_Pedro_TeixeiraOs sinos, na verdade, não bimbalhavam. Aqueles maiores o Pascoal Bailão, o Jerônimo, o Daniel que esses são os nomes dos sinos da arquiconfraria do Santíssimo, dos Passos e das Almas, não bimbalhavam. Soavam fúnebres: badaladas, pausadas, lentas, sonoras é verdade, mas pela maneira como eram tocadas, em dobre simples, adquiriam significado diferenciado, claramente anunciadores de morte, e de morte lamentada.
Os sinos menores, esses, sim, talvez estivessem cobertos de razão, pois, quase irreverentemente, anunciavam que mais um anjo era acolhido no céu: seu toque leve, ligeiro, embora comportado, eram um anuncio feliz. Eles quase diziam: vem, Padre Pedro, vem! Assim aconteceu na Igreja do Rosário e, particularmente, na de Santo Antônio.
Enfim, um festival misto de plangência e alegria, entre as cinco igrejas da região histórica de São João del-Rei. Aliás, sino, em São João del-Rei é assim: “conclama e convida, explica e esclarece” como diz ilustre filho desta terra.
Morreu então, o Padre Pedro. Noventa e quatro anos, sessenta e sete de sacerdócio. Sou daqueles que há mais tempo conhecem Padre Pedro.
Em l948, quando de sua ordenação sacerdotal, ele, juntamente com um tio padre colega seu de turma, recém-ordenados, foram até minha cidade natal, Oliveira, visitar meu pai. Na ocasião levaram uma imagem de Dom Bosco que, durante anos, foi colocada na entrada da capela do Santíssimo, na Catedral. Cada vez que lá entrávamos, tínhamos que enfrentar o sorriso acolhedor de Dom Bosco. Como aquilo me marcou. Hoje ali não está mais: foi ocupar o devido lugar na paróquia Dom Bosco criada em bairro popular.
Conheci bem o padre Pedro. E embora tenhamos nos distanciados em alguns períodos da vida, nunca houve separação entre nós, tal o respeito que por ele nutria, tal o carinho que a mim dispensava.
Padre Pedro nunca ocupou, ao que saiba, posto algum de importância institucional. Sempre foi um soldado raso ,atuando na linha de frente, comprometido com o essencial da missão sacerdotal: a evangelização, a catequese e o exercício do serviço aos irmãos, particularmente jovens, velhos e doentes, num a linda encarnação da benignidade e humanidade de Jesus.
Como não podia deixar de ser, encontrei-me com tanta gente nesses dias. Gente a dizer: morreu um grande padre; taí um padre simples, não que fosse simplório, pois sempre soube o que estava fazendo; morreu um padre pobre: tinha uma batina e um breviário; morreu um padre de quem se podia falar: santo; um padre grande catequista. Mas, o que mais ouvi foi: “morreu um grande confessor; acho que aqui todo mundo confessava com ele; não sei se o Bispo, mas o resto…”
É assim. Padre Pedro foi sempre, em todo lugar, em todo tempo, um sacerdote. Que beleza vê-lo celebrar uma missa de corpo presente. Que beleza, já velho e doente, PROCLAMAR o evangelho nas missas em que já não presidia, mas insistia em concelebrar e lhe davam oportunidade de ler a passagem do Evangelho.
Padre Pedro morreu. Vai fazer falta. Não sei. Sei, porém, que deixa uma mensagem clara do que significa ser padre: estar a serviço, sobretudo dos mais necessitados econômica, social, espiritual e até culturalmente.
Padre Pedro deixa São João cheia de lembranças saudáveis. Deixa muita gente a dizer: eu o conheci, me ajudou muito, fez isso, fez aquilo para vovó, pelos meus pais, pelos doentes da minha rua. Nunca deixava de atender a quem quer que o procurasse.
Há memoráveis cenas em sua vida. Algumas até mesmo cômicas. Tudo, a meu ver, a dizer de uma vida comum, sem grandes vôos, exceto aqueles que os sinos ontem, e hoje insistem em anunciar. Revoada de sinos mesmo, anunciando… anunciando… como Padre Pedro sempre fez com a Palavra de Deus.
Não, não há necessidade de anunciar no céu que Padre Pedro está chegando. Há vários anos certamente já estavam de olho nele.